Relato Histórico

    Observando-se gravuras em que aparecem antigos instrumentos de cordas, se deduz que estes não adotavam formas e tamanhos determinados e sim, respondiam a estruturas pessoais e cada artista concebia seu próprio instrumento com grande subjetividade.
    Em 1236 se tem a primeira menção ao um instrumento chamado "guitarra" na língua castelhana, no Livro de Alexandre, pelo poeta anônimo do "Mester de Clerecía".
    Em 1265 Juan Gil of Zamora menciona guitarra em "Ars Musica".
    De 1283-1350 as expressões Guitarra Latina & Guitar Moresca são mencionadas múltiplas vezes nos poemas Archpriest of Hita.
    Em 1306, uma "gitarer" foi tocada na Feast of Westminster in England.
    Em 1487 Johannes Tinctoris descreve a guitarra como sendo um instrumento inventado por Catalãos. Ele se refere a uma guitarra de quatro cursos, sendo que cada curso representa um par de cordas.

    Em 1546 "Tres Libros de Musica en Cifras para Vihuela"  de Alonso Mudarra é a primeira publicação que inclui músicas para guitarra.


“... La guitarra presenta un contorno periforme, más estirado que el laúd, el mástil indiferenciado de la caja, clavijero em forma de hoz, roseta central, a veces outra roseta más pequeña junto a aquélla y tres o cuatro órdenes de cuerdas. Por supuesto, se tañe com um plectro.”
Johannes Tinctoris, em De inventione et usu musicae, início séc. XV 





Cantigas de Santa Maria, de Alfonso X el Sabio, (ca. 1275).
Biblioteca de El Escorial. Miniatura de la cantiga 90. Guitarras
Anônimo (final séc. XIV) – Virgen com ángeles músicos –
Museo Diocesano de Valencia. Guitarra y laúd.
Francese Serra II (final séc. XIV)]
 “Virgen de la Leche com ángeles músicos” -
Museo d'Art de Catalunya

    Em meados séc. XVI a Península Ibérica chamava guitarra um pequeno instrumento em forma de oito.
    Segundo Juan Bermudo (1555), guardava estreita relação com a vihuela de mano: era, na verdade, uma vihuela menor e com menos cordas.
    Pode-se definir a vihuela como sendo um instrumento em forma de oito, no qual as duas partes que determinam sua silhueta são do mesmo tamanho.





Vihuela, siglo XVI Jacquemart-André, Paris.

    Na evolução da construção dos instrumentos antigos, a partir do alaúde (levado à Europa no século VIII pelos árabes), não se percebe nenhuma modificação importante até a segunda metade do século XVI, época em que aparece a guitarra de cinco ordens (ou cursos) de cordas. A quinta corda se deve ao poeta e músico andaluz Vicente Martínez Espinel, nascido em Ronda (Málaga) na Espanha no ano de 1550, ao qual se deve também o sistema de afinação da guitarra por equísonos, que não somente é o atual, como é o mais perfeito, pela resolução que o ouvido humano tem para comparar sons. Os músicos mais importantes do século XVII começaram a prestar atenção à guitarra de cinco cordas, com a qual podiam efetuar acordes perfeitos e introduziram-na nos ambientes musicais mais representativos, fazendo-a ser o instrumento favorito em todas as cortes européias.





1581 - Belchior Dias –  Royal College of Music (London)


    A guitarra adquiriu grande importância graças a pessoas como:
    O século XVIII trouxe consigo grande evolução à guitarra. Talvez a maior modificação tenha sido a aparição da sexta corda. No ano de 1760, Frei Miguel Garcia, conhecido como o Padre Basilio, apresentou pela primeira vez uma guitarra de seis cordas. Este grande músico organista adotou a guitarra como seu instrumento favorito e foi o primeiro a escrever músicas para guitarra em notação musical moderna. Como conseqüência do enriquecimento musical que a guitarra de seis cordas adquiriu, no final do século XVIII apareceram instrumentos com concepções muito distintas: guitarras de sete, oito, doze e vinte cordas, com braços e formatos muito variados. Todos estes instrumentos ficaram relegados ao relicário porque, certamente, nenhum deles tinha mais possibilidades musicais que a guitarra de seis cordas.
       No que concerne à arte de tocar guitarra, o século XVIII foi prolífero, pois houve grandes concertistas como Fernando Carulli (1770-1841), grande clássico da guitarra que compôs mais de trezentas obras e escreveu um tratado de harmonia, publicado no ano de 1825;
Dionísio Aguado (1784-1849), grande estudioso da digitação, nascido em Madri e que foi discípulo do Padre Basílio, estando seu método ainda em vigor e; Fernando Sor (1778-1839), catalão, que chamavam de o “Beethoven” deste instrumento.

    No final do século XVIII surgiram várias escolas de construção, mas a guitarra granadina teve maior relevância e tudo leva a crer que seu iniciador tenha sido Rafael Vallejo, no ano de 1792. VallejoA cargo do rei da Espanha, Carlos IV, Vallejo construiu uma guitarra singular, com seis cordas dobradas (seis cursos) e outras vinte cordas mais, de afinação fixa, com uma escala de cinco trastes, que levou três anos para ser construída e agora é conservada no Victoria and Albert Museum de Londres. Vallejo Durante a primeira metade do século XIX, apareceram construtores artesãos como José Ortega, Benito Ferrer, Agustín Caro Riaño, José Pernas, Antonio Llorente e os irmãos Nicolás e Antonio Valle.

    Apesar da evolução que experimentou a guitarra a respeito de sua construção, seu aspecto musical ficou afetado pela aparição do piano, instrumento que se tornou o dono das salas de música e então, raras vezes, via-se a guitarra aonde havia música séria e tocá-la se tornou uma atividade de passatempo. Nestas condições, “la guitarra pasó a la taberna, com el principal objeto de acompañar a voces aguardentosas”, como diz Emilio Pujol em sua Escuela Razonada de Guitarra e, “com mil golpes em la tapa y mil manchas de vino o caldo de caracoles”, como indica Manuel Cano em sua obra: Um siglo de la guitarra granadina.
   

    A segunda metade do século XIX viu um ressurgimento da guitarra que haveria de ser irreversível e isto é devido a um homem: Antonio de Torres Jurado.  Torres redesenhou a guitarra dando-lhe, dentre outras modificações, uma nova silueta, o que lhe garantiu um grande aumento da potência sonora, fazendo-a muito similar às guitarras que conhecemos hoje.




    Francisco de Tárrega (1854-1909) demonstrou pela primeira vez todas as possibilidades musicais do instrumento; suas composições são de uma harmonização muito rica e acabou influenciando os mais importantes músicos a compor para guitarra. Os conhecimentos de Tárrega foram recolhidos e ampliados por um dos mais ilustres violonistas de nossos tempos, Andrés Segovia, que levou a guitarra a todos os conservatórios e salas que interpretam música do mundo, fazendo deste instrumento um dos mais importantes e respeitados por todos aqueles que apreciam música.